O colapso da Venezuela não irá acabar com o poder sedutor do socialismo – e há explicações para isso

Três anos atrás, um famoso esquerdista americano, David Sirota, escreveu um ensaio para a revista Salon intitulado “O milagre econômico de Hugo Chávez“.  Eis um trecho:

Chávez se tornou o bicho-papão da política americana porque sua defesa aberta e inflexível do socialismo e do redistributivismo não apenas representa uma crítica fundamental à economia neoliberal como também vem gerando resultados inquestionavelmente positivos. … Quando um país adota o socialismo e se esfacela, ele se torna motivo de piada e passa a ser visto como um inofensivo e esquecível exemplo de advertência sobre os perigos de uma economia dirigida pelo governo.  Porém, quando um país se torna socialista e sua economia apresenta o grande desempenho exibido pela economia venezuelana, ele não mais se torna motivo de piada — e passa a ser difícil ignorá-lo.

Já no último domingo, o jornalista Nicholas Casey, do The New York Times, que também é um jornal de esquerda, escreveu um artigo intitulado “Crianças morrendo e nenhum remédio: dentro dos destroçados hospitais venezuelanos“.  Eis um trecho:

Pela manhã, três recém-nascidos já estavam mortos.  O dia já havia começado com sua rotina típica: escassez crônica de antibióticos, de soluções intravenosas e até mesmo de alimentos.  E então houve um apagão e toda a cidade ficou sem eletricidade, o que desligou os aparelhos respiratórios da sala de maternidade.  Os médicos tentaram manter os bebês vivos manualmente, comprimindo ritmicamente seus pequenos peitos com as palmas de suas mãos para tentar mandar ar para seus pequenos pulmões.  Quando a noite caiu, mais quatro bebês estavam mortos. … A crise econômica que assola este país explodiu e levou ao total colapso a saúde pública do país, encurtando as vidas de um incontável número de venezuelanos.

A saúde pública foi apenas uma das áreas destruídas pelas políticas socialistas do governo venezuelano.  Atualmente, não há comida, os supermercados são diariamente saqueados, e os venezuelanos estão recorrendo à prática da caçar cachorros, gatos e pombos nas ruas para tentar saciar sua fome (veja os mais recentes relatos aqui).

Contrariamente à patética previsão feita pelo esquerdista David Sirota, eu não tenho nenhuma intenção de “fazer piada” com a atual situação venezuelana.  Tampouco vejo a situação do país como “um inofensivo e esquecível exemplo de advertência sobre os perigos de uma economia dirigida pelo governo”.

Não creio que crianças morrendo como moscas nos hospitais públicos são motivo de piada.  Assim como não faço chacota quando leio sobre os famintos chineses que tiveram de comer seus próprios filhos durante o governo comunista de Mao Tsé-Tung.  Também não acho nenhuma graça quando leio sobre as 14,5 milhões de mortes causadas por Stalin e seu Holodomor na Ucrânia. Tampouco caio na gargalhada quando leio sobre como os soldados do Khmer Vermelho, no Camboja comunista, assassinavam crianças com baionetas.

Muito menos achei qualquer graça quando testemunhei com meus próprios olhos crianças reduzidas à inanição pelo ditador marxista do Zimbábue, Robert Mugabe.

Com efeito, não há absolutamente nada de engraçado nesse quase incompreensível grau de sofrimento que o socialismo impôs — e segue impondo — aos seres humanos em todos os locais em que foi tentado.

Por maior que fosse meu eventual prazer em esfregar o nariz de Sirota na inacreditável estupidez que ele escreveu, não teria como eu genuinamente me divertir com isso, pois sei que o mergulho da Venezuela no caos — com sua hiperinflação, suas prateleiras vazias, sua violência fora de controle (com pessoas sendo queimadas vivas nas ruas), e o colapso total dos mais básicos serviços públicos — não será a última vez em que testemunharemos o colapso de uma economia socialista.

Olhando para o futuro, é seguro prever que mais países irão se recusar a aprender com a história e irão adotar novamente políticas socialistas, ainda que talvez sob outra roupagem e sob outro rótulo.  Pior ainda: estou igualmente certo de que, quando isso novamente ocorrer, haverá “idiotas úteis” — para utilizar as palavras de Lênin — como David Sirota, que irão cantar as glórias do socialismo até o momento em que tal país se afundar no mais profundo colapso.  E, após o colapso, esses nobres palpiteiros irão simplesmente tirar o time de campo, ignorar tudo o que escreveram, e passarão a parolar eloquentemente sobre outros assuntos.

O que nos leva a essa importante pergunta: dado que o socialismo sempre fracassou em todos os locais em que foi tentado, por que ainda existem inúmeras pessoas que insistem em lhe tecer glórias e em tentar fazê-lo funcionar?

A psicologia evolucionária nos fornece uma resposta plausível.  De acordo com os professores John Tooby e Leda Cosmides, da Universidade da Califórnia, a mente humana evoluiu dentro de um “ambiente de adaptação evolucionária“, que durou entre 1,6 milhão de anos atrás e 10 mil anos atrás.  “A chave para se entender como a mente moderna funciona”, escreve Cosmides, “é perceber que seus circuitos não foram desenhados para resolver os problemas cotidianos dos humanos modernos — eles foram desenhados para resolver os problemas cotidianos de nossos ancestrais, que viviam exclusivamente da caça e da coleta“.

Em outras palavras, os crânios modernos abrigam mentes da Idade da Pedra.

Logo, quais são algumas das características dessas mentes da era paleolítica e o que essas características nos dizem a respeito de como entendemos a economia?

  • Primeiro, naquela era, nós nos desenvolvemos e evoluímos dentro de grupos pequenos.  Conhecíamos uns aos outros e, muito provavelmente, éramos todos parentes.  Em um mundo sem especialização, sem divisão do trabalho e sem comércio, os ganhos auferidos por um grupo, “nós”, normalmente se davam à custa de outro grupo, “eles”.  Isso torna naturalmente difícil para o ser humano entender e apreciar os ganhos trazidos por atividades econômicas complexas, como o comércio global.
  • Segundo, como vários outros animais, nós formamos hierarquias de dominância.  E, como outros animais, nós nos ressentimos com aqueles que estão no topo, e por isso formamos coalizões com o intuito de desalojá-los e substituí-los.  Nosso ressentimento com hierarquias inclui não somente as hierarquias que geram jogos de soma zero, como as ditaduras — que desviam todos os recursos produzidos para quem está no topo —, como também hierarquias de soma positiva, como as empresas, que melhoram o bem-estar das vidas humanas.
  • Terceiro, a “natureza social do arranjo de caçadores e coletores, o fato de que os alimentos se deterioravam e estragavam rapidamente, e a total ausência de privacidade”, escreve Will Wilkinson, significavam que “os benefícios do sucesso individual na caça ou na coleta não podiam ser internalizados pelo indivíduo, pois ele tinha de dividir com todos os outros o seu feito.  A inveja em relação aos desproporcionalmente ricos pode ter ajudado … aqueles das camadas mais baixas na hierarquia de dominância a se protegerem de eventuais confiscos feitos por aqueles que eram capazes de acumular poder e chegar ao topo.”

Colocando sucintamente, os humanos são, por natureza, invejosos, rancorosos, ressentidos e incapazes de compreender — muito menos de apreciar — o sofisticado sistema econômico que surgiu e evoluiu apesar dos — e não por causa dos — nossos melhores esforços em contrário.

Por essas e outras razões, pessoas como Sirota gostam de fazer pontificações líricas sobre a Venezuela ao mesmo tempo em que ignoram exemplos de genuíno sucesso na economia global.  Na própria América Latina, temos o exemplo do Chile.  Na década de 1970, o Chile trocou o socialismo pela economia de mercado.  Prosperou.  Em 1973, que foi o último ano de governo socialista, a renda média per capita do Chile era apenas 37% da renda média per capita da Venezuela.  Em 2015, o Chile não apenas já havia ultrapassado com folga a Venezuela, como a renda média per capita da Venezuela era apenas 73% da renda média per capita do Chile.  De lá pra cá, a economia chilena expandiu 231%.  A da Venezuela encolheu 12%.

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Gráfico 1: evolução do PIB per capita dos EUA (laranja), da Venezuela (azul claro), e do Chile (azul escuro)

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Gráfico 2: expectativa de vida nos EUA (laranja), na Venezuela (azul claro), e no Chile (azul escuro)

 

Com alguma sorte, Nicolás Maduro rapidamente será história e as pessoas da Venezuela poderão ter alguma liberdade para consertar seu país devastado.  Elas poderiam olhar para o Chile como um exemplo a ser seguido.

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Autores: Marian Tupy é o editor do site HumanProgress.org e analista de políticas no Center for Global Liberty and Prosperity.

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