E se a PEC 241 fosse sobre um condomínio?

Nessa situação, eu sou o síndico do condomínio do prédio de vocês. Meu sustento provém, única e exclusivamente, da conhecida “taxa do condomínio”.

Nessa taxa, a qual TODOS vocês são obrigados a pagar, eu prometo-lhes, em troca da sua contribuição, seguranças no condomínio, iluminação, arborização, energia elétrica e abastecimento de água/gás para cada um dos apartamentos.

Mas eis o primeiro problema: a taxa é única.

Dentre vocês há pessoas que deixam a torneira ligada enquanto lavam a louça e escovam, a luz acessa enquanto dormem, fazem discoteca no apartamento. Mas ainda assim, a taxa é única.
Isso implica que, caso você poupe, pagará X. E, caso exagere no consumo, também pagará X.

Pra evitar que falte dinheiro, já que nem todos consomem o mesmo, eu instituo a taxa de condomínio alta o bastante pra que todos paguem e não falte dinheiro.

Os meses passam e eu quero viver melhor; a taxa que serve pra pagar meus custos de vida começa a ficar pequena demais pra sustentar meu consumo. O dinheiro arrecadado que antes servia para pagar os serviços básicos do condomínio e me sustentar começa a ficar pequeno já que gasto cada vez mais e sobra cada vez menos.

Dou um jeito de fazer acordos com alguns do moradores- estes se tornam meus funcionários- pra que eu contrate as suas concessionárias de energia e gás por um preço acima do valor de mercado e, em troca do serviço de menor qualidade, eu receba uma parte da grana. Pra isso eu aumento a taxa do condomínio: vocês pagam mais e eu lhes garanto a manutenção dos serviços.

A partir deste ponto a água tem cheiro ruim, os postes pouco iluminam, os seguranças dormem no ponto.

Mas isso não basta. Afinal, em 2017 faço 20 anos, quero dar uma festa e comprar um carro novo. Decido então recorrer ao síndico do outro condomínio e pedir um empréstimo; empréstimo esse que será pago com as “partes” dele que vendi entre os moradores interessados. Disse que, se financiassem o empréstimo que tomei, devolveria a eles um valor a mais do que me deram hoje. Um empréstimo para pagar um empréstimo. Mas dos meus moradores cuido eu.

O dinheiro que “comprei” finalmente caiu na minha conta e de cara, pensei no meu carro novo. Deu na telha, comprei minha Mercedez.

Me dei mal, esse mês era mês de festas e os gastos do condomínio aumentaram.

Logo aparece o segundo problema: gastei o dinheiro do empréstimo no meu carro novo e não sobrou pras contas do condomínio.

Nesse caso, como todo síndico esperto, tenho três opções:
– Tiro do meu bolso pra arcar com minha irresponsabilidade de gestão (essa ideia não me agrada nem um pouco);
– Pressiono os moradores pra pagarem mais (mas eles vão desconfiar da minha irresponsabilidade, talvez queiram eleger outro síndico e eu perca a bocada);
– Vou ao mesmo condomínio e peço outro empréstimo (mas eu ainda nem paguei o primeiro. O agiota ficará desconfiado sobre as minhas chances de pagar primeiro, quem dirá o segundo);

Decido pela terceira opção. O agiota, tão esperto quanto eu, cobra um juros maior (aí se eu não pagar o primeiro, os juros do segundo compensam o calote), acordamos então que devo pagar Y+ 20%y.

Nessa situação eu já carrego nas minhas costas alguns débitos:
– iluminação, segurança, energia e gás do condomínio;
– o primeiro empréstimo;
– o segundo empréstimo;

Nesse ponto, qualquer morador atencioso veria que eu estou enriquecendo e passando o ônus da minha vida cara aos moradores, que sofrem com a má qualidade dos serviços prestados no condomínio.

Mas eu trabalhei bem, fiz alguns moradores pensar que o problema dos serviços terem piorado não era a estrutura que criei, era a falta de dinheiro injetado nestes setores.

O primeiro grupo começa a se mobilizar então pra que eu estabeleça um limite nos meus gastos. É uma ideia mediana, me agrada o fato de ainda continuar com minha Mercedez mas não queria abrir mão da compra daquela nova BMW. Enfim, com medo de tudo degringolar e o condomínio simplesmente não ter mais dinheiro pra pagar nada, cedo.

Terei que ser comedido pra, dessa vez, gastar o suficiente pra que sobre o bastante pra pagar as contas do condomínio.

Terceiro problema: A lógica mudou. Antes eu gastava o que sobrava após pagar o condomínio, hoje eu gasto antes e pago o condomínio com o que sobrar.

Surge ainda um grupo radical dentro dos que clamam pra que eu invista mais dinheiro no condomínio (e pra isso tenha que arrecadar mais), que sugere que eu não mais pague os empréstimos que tomei. Esquecem eles que alguns dos meus fiadores no condomínio são os meus próprios funcionários, e eles mesmo, já que financiei parte da dívida através da taxa de condomínio e que, se eu não pagá-los pelo empréstimo que fiz lá em cima, eles simplesmente deixarão de fornecer seus serviços ao prédio.

De outro lado, alguns se mostram totalmente avessos à ideia de responsabilidade; Pra que eu continue investindo nos serviços do condomínio (e, supondo que eu não comprarei novos carros nem farei mais contratos fraudulentos) os mais ricos devem pagar mais, mas só por serem mais ricos, dizem eles.

Eu gosto da ideia, finalmente alguém foi lobotomizado o bastante pra pensar que eu não mais devo ter cuidado com o que gasto e apenas tenho que cobrar mais de quem tem mais. Infelizmente -pra eles, claro, já que não dou a mínima, nem vivo mais nesse condomínio- o meu condomínio se complexou tanto que os mais ricos desse prédio trabalham no próprio prédio. São eles- os médicos, dentistas, advogados- que arcarão com a maior proporção da dívida que criei.

Mas ninguém é bobo quando eu mexo no bolso diretamente, já me comunicaram que, assim que eu passar a cobrar mais sobre eles, eles passarão a cobrar mais sobre os outros. No fim, os mais pobres que queriam ser isentos do pagamento seriam os afetados diretamente pela alternativa à diminuição da margem de lucro que os mais ricos tomaram.

Nesse impasse entre ser responsável com as contas públicas, não pagar os empréstimos ou apenas cobrar mais de quem tem mais, comemoro. Enquanto eu estiver ganhando a vida às custas de todos, pouco me importa.

Eu nasci pra esse cargo, alguns apostam na minha capacidade de gestão e eu sou quase um deus pra muitos.

Essas ideias me agradam.

Pensando bem… ser síndico é muito pouco. Talvez daqui a 4 anos eu me candidate a Presidente do Brasil.


Autor: André Lucas Sena

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *